Estou postando aqui uma entrevista que tivemos com o vocalista da banda Mundo Livre S/A, uma das principais peças para o movimento "Mangue" e para o nosso Doc. A Entrevista rolou na casa de shows "Studio SP" que fica na Rua Augusta, 591 Centro. Os que compareceram foram: Milner Souza, Cauê Martins, Eric Veloso e Guilherme Genereze. Guilherme ficou encarregado de entrevistar o Fred, e o fez muito bem. O restante ficou trabalhando na câmera e no áudio. As perguntas foram elaboradas pelo grupo. Aqui se encontra a entrevista transcrita pelo Milner Souza. Confira
Guilherme Genereze: Fale como surgiu o movimento mangue.
Fred 04: “Pô véio”, a primeira faísca “digamos assim”, acho que foi
com a idéia genial do Chico Science de convidar para fazer um ensaio
conjunto, a banda dele com a banda de um brother de trabalho que era o
Gilmar Bola 8, ele tinha uma banda de rock psicodélico “tal”, que
tinha um pouco de Hip Hop e o Gilmar participava de uma ONG que tinha
um grupo de percussão e que tinha um espaço grande para ensaiar que
era o Daruê Malungo e tal, e ai a junção das duas coisas, quando eles
começaram a tentar unificar a sonoridade, aquilo foi um impacto tão
“foda” pra todo mundo que convivia com os caras que é... E a idéia
dele de usar a sonoridade Mangue um pouco inspirada no Mambo na coisa
da World Music também, mais que tinha tudo haver com o bairro lá do
Chico (rio doce), com o bairro do Gilmar que era Peixinhos, tudo era
área de manguezal e “tal”. “Ai agente como”, ele era fã pra caramba do
Mundo Livre, ele já tinha avisado que queria gravar Computadores Fazem
Arte “não sei o que”, agente conseguiu “é”, rapidinho, aproveitando o
espírito solidário e generoso que Chico tinha, mostrar aquilo todo
podia ser uma coisa “fuderosa” para toda cidade, que poderia tirar,
usando uma metáfora assim, poderia tirar a cidade da lama, até no
sentido em termos de virar uma referencia por conta de Mangue ser um
símbolo de diversidade de riqueza “né”, de biodiversidade e tal e que
o Recife é uma coisa cheia de gêneros nativos diferentes de musica e
“tal”. Ele pirou com a idéia e “tal” e virou uma celebração coletiva
da diversidade do Recife e aí agente convidou toda a galera que agente
achava que tinha haver com essa idéia de romper com o conservadorismo
do ambiente tradicionalista que tava rolando naquela época na cidade,
independente se fosse hard core, todo mundo que tava agitando uma
coisa urbana contemporânea e “tal”, que estivesse afim de encorpar
esse espírito coletivo assim, agente convidou para esse evento que
era Viagem para o centro do Mangue. Aí depois de algumas edições, aí
agente começou a inventar todo mundo que chegava na mesa de bar e
chamava o outro de “Aratu”, e chamava o outro de “Guajá” e “Caritó” e
“não sei o que” e aí um vinha com a idéia do chapéu de palha e o outro
vinha com a idéia de um plug aqui, cada um vinha com uma performance
“assim” inspirada nessa simbologia do Mangue e começou a usar isso no
evento (Viagem para o centro do Mangue), aí começou a chamar, entre
uma musica e outra, chamar todo mundo de MangueBoy e “tal” e foi
virando um evento de relativo sucesso na cidade, itinerante porque não
tinha palco na cidade pra se apresentar, agente tinha que inventar
lugares “assim”, não tinha produtor, não tinha empresário, não tinha
divulgador, recife era muito amador nesse sentido. Depois de um tempo
eu percebi que não tinha nenhum texto para imprensa e resolvi fazer um
Release (Manifesto Caranguejo com Cérebro), usando algumas imagens que
a galera dizia nos shows e “tal” e inventando outras, e ai veio, esse
texto agente começou a mandar pra tudo “qué” redação e foi parar na
mão de uma produtora da MTV que estava por acaso fazendo uma pauta lá
em Recife e aí virou uma matéria de gaveta da MTV e o resto é
Historia.
Guilherme Genereze : Fale sobre a Visão Política do Mangue
Fred 04: Como ?
Guilherme Genereze : A visão Política
Fred 04 : A visão Política né. Velho é o seguinte. Uma parte do
núcleo ali fundador da parada, não tinha muita concepção de
engajamento assim mais político, mais tinha uma parada assim de
conscientização social forte, até por conta do Lance do Daruê Malungo,
que foi a ONG que surgiu o Lamento Negro que foi uma lá das coisas do
Nação Zumbi. Mais uma parte era só a vontade de tirar um som original
e “tal” e a outra parte do Mundo Livre , eu e o Renato (Renato Lins),
tinha uma vinculação um pouco mais de ativismo estudantil e “tal”.
Agente fazia greve desde o inicio da faculdade de comunicação, eu fui
do “D.A” de imprensa e tal. Então juntou essa parada do Chico que
tinha uma coisa mais voltada para celebrar a herança rebelde de
Pernambuco, essa historia da Revolução Praieira do Lampião, Zumbi, do
nordeste e “tal”, com essa coisa mais digamos global e de uma visão
mais da guerra fria que foi quando surgiu o Mundo Livre na coisa da
contra informação e “tal”. Aí virou uma militância digamos assim, mais
como dizia Chico, “Diversão Levada a Serio”, quer dizer agente o tempo
todo quis manter uma convicção firme assim de evitar a linguagem
panfletaria assim, embora depois de um tempo algumas pessoas ligadas
ao movimento ambientalista, a questão dos manguezais lá de Recife
acaram com algum tempo se chegando, mais agente fazia questão de
deixar bem claro que a intenção principal era a estética cara, a
intenção de usar a questão social, ambiental , política e tal, como
inspiração, mais o objetivo maior era tentar inventar um conceito
estético bacana, original “assim e tal”.
(breve pausa para pensar)
Mais é loco porque hoje Chico principalmente depois da morte dele
virou cartilha pra escola municipal, tem cartilha pra própria
secretaria de educação, virou um ícone mais da voz da periferia, que é
muito saudável e acabou ajudando também romper uma tradição muito
conservadora que vinha dominando o cenário político lá em Pernambuco
“assim”.
Guilherme Genereze : Queria saber se lá na “Manguetown” melhorou a
situação depois do movimento.
Fred 04 : Então é, hoje “veio”, pó nem se compara, para quem monta um
trabalho hoje “veio”, tem dezenas de palcos disponíveis, tem não sei
quantos estúdios de gravação, tem festivais o ano inteiro “sabe”, tem
o poder publico lá entro de cabeça mesmo para “infomentar”, tem lei de
incentivo, CIC municipal, tudo abre espaço pra esse tipo de som
contemporâneo, até pela referencia que Recife se tornou e “tal” ,
então hoje é outro ambiente.
(começa a falar mais rápido)
Embora tenha um aspecto assim que não mudou quase nada que é o boicote
branco velado dos meios de comunicação locais. Mundo Livre, “ED”,
Nação , não toca “veio” em radio, em nenhuma radio lá. Agente arrecada
uma grana de execução publica do Brasil todo menos de Recife cara,
porque acho as concisões são todas da época que quem dominava a
política local era o PFL , essa galera, que são os donos de todas as
concisões até hoje, e pra eles “veio” essa linguagem do Mangue é jogar
contra “assim”, porque eles sabem, que tanto é que desde que surgiu a
parada (Movimento Mangue), eles nunca mais tiveram vez na política lá
também saco? Então eles não vão liberar programação “Manguebeat” nas
rádios, eles são os donos. Agora agente ta conseguindo tirar do papel
depois de muitos e muitos anos, eu fiz o manifesto, abaixo assinado,
aí na época o prefeito que era do PFL vetou e “tal”, que é a radio
publica municipal, que é a Radio Frei Caneca agora, já passou por
congresso, já esta só faltando uma seção presidencial pra conseguir a
concessão, tem orçamento pro equipamento, já tem até uma sede, já tem
tudo e aí eu acho que pode ser o começo de uma pressão para mudar essa
mentalidade nas rádios de lá né. Você Sabe que lá na Jamaica, é uma
historia que hoje todo mundo conhece, o Reggae era sucesso no mundo
todo e não tocava nas rádios da Jamaica, foi preciso às gangues lá da
galera do próprio Reggae, arrombar mesmo, invadir as rádios e forçar
pra que tocasse. Lá agente não quer chegar a esse extremo mais tem os
canais democráticos de batalha e agente vai começar a partir dessa
Rádio Municipal.
Guilherme Genereze : Como está o Movimento do Mangue hoje em dia
Fred 04 : Não veio , o movimento musical , cultural em geral veio,
apesar desse ano ter toda aquele cenário de crise econômica que
atrapalhou pra caramba, o Abril pro Rock quase que não rolava, muito
dos festivais não só lá, no Brasil mesmo tem a “ABRAFIM” que congrega
dezenas e dezenas de festivais independentes do Brasil todo, todos os
festivais que agente tava agendado, vários deles, entre os meses de
Julho, agosto, Setembro, foram todos adiados “cara”, tudo vai rolar
pela primeira vez no final do ano, então essa questão da crise
financeira, pra quem depende de patrocínio estatal que a maioria dos
festivais dependem da Petrobras ou do Banco do Brasil “não o sei o que
tal”, tudo isso ouve uma retração pra “caralho” esse ano. Mais apesar
disse “veio” ta rolando, “porra” agora mesmo Coquetel Molotov rolou
esse fim de semana, sexta e sábado “veio”, com os ingressos todos
esgotados com antecedência nos centros de convenções, ta bacana
“veio”. Tem muita banda nova surgindo, agora essa historia de Mangue,
se é Mangue, se não é Mangue, se é Pós Mangue, o engraçado é que já
surgiu, “Asfaltobeat”, já surgiu Pós Mangue e “tal”, mais nunca
apareceu ninguém para se dizer Anti-Mangue entendeu ? Isso para mim
é uma coisa bem emblemática “assim saca?”. Agente tem uma relação
muito boa com a galera das bandas novas, os caras sempre que encontram
pagam maior pau “assim” e “tal”, eu acho que a galera toda no começo
incomodava um pouco essa historia de que todo mundo ter que ser
chamado de Mangue, sabe? Por uma questão de rotulação mesmo, da
imprensa do sul mesmo, “ah é mais uma banda do Mangue”, às vezes os
caras não estavam nem aí com essa historia e isso incômodo muito em um
período assim né ? Segunda Geração e “tal”. Mais hoje a Galera ta mais
consciente que a idéia original era colocar o Recife no Mapa, de uma
forma que favorecesse todo mundo “cara” e isso que rolando.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Entrevista com Fred Zero Quatro
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