sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Áudio, Sonorização e Direção Musical

A idéia do documentário era fazer um documentário bem musical, alternando entrevistas e shows de Chico Science. Esta era a idéia inicial, porem com o passar do tempo e a viagem para Recife, tivemos fácil acesso há cultura tradicional da região, isto mudou a nossa concepção de áudio.
O que usamos para captar o áudio durante as entrevistas foi um Lapella e um Boom, o que foi bem eficiente e fácil de usar, o pequeno Lappela ficava sempre com o entrevistado e o Boom, manejado por Raoni, ficava andando do entrevistador para o entrevistado.
Em alguns casos específicos usamos o som da câmera mesmo, houve um dia em Recife que captamos um evento chamado Terça-Negra, acontece toda terça-feira em uma praça no centro da cidade, acontecem shows de grupos de musica afro, é muito bom e o som vinha de tantos lugares que preferimos usar o som da câmera, acredito que tenha ficado legal, precisamos dar uma tratada no som mas vai ficar bom, temos boas imagens do evento e a musica tem uma energia muito positiva, com muito Axé.

Enquadramentos e Cenários

Enquadramento

Em questão de enquadramento o filme varia bastante, ate mesmo em entrevista os planos variam de uma entrevista para outra e ate na mesma entrevista nos gostamos de variar mas sem muita ousadia neste caso, a estratégia era de que quando o entrevistado estivesse emocionado ou falando algo profundo, complicado nos deveríamos aproximar o plano e foi isto que fizemos.
Houve entrevistas em que o plano chegava a ser quase conjunto, pois no caso de Abará e meia noite eles deram a entrevista com seus tambores de macaratu, então tivemos que enquadrar também os instrumentos, que pareciam ser extensões de seus corpos, no meio das conversas eles começavam a tocar uma canção e cantar, isto ficou muito bacana, espero que a luz não tenha atrapalhado muito, já que não tínhamos muita qualidade de luz no local.
Tirando alguns casos como Abará e Meia-Noite a maioria das entrevistas tiveram um enquadramento fechado em um plano médio, alternando com closes, fomos bem “caretas” em algumas mas acredito que tenha “casado” bem com o clima da entrevista, nem todas foram descontraídas e nem todos gostavam de cantar e tocar tambor durante a conversa.





Cenários

A proposta do filme era fazer um documentário voltado para o social, para a visão da periferia junto com a visão pessoal, familiar e musical de Chico Science, logo pensamos em fazer as entrevistas sempre em locais associados ao tema.
Tivemos muito sucesso em algumas entrevistas, na verdade na maioria, filmamos manguezais, tambores no cenário, orixás pintados nas paredes, o morro do Aldo do José do Pinho que tem uma visão maravilhosa e a favela de Peixinhos.
Porem muitos dos entrevistados, (aqueles que hoje tem uma vida mais confortável e para manterem este padrão tem que correr o dia todo) não podiam dedicar muito tempo, como Fred Zero Quatro, Renato Lins, José Telles, estes ai tivemos que nos virar com o que tínhamos de cenário.
No caso de Telles foi tranqüilo pois ele tinha uma infinidade de cds em sua sala e usamos isto como linguagem no cenário para associar o personagem com a musica, apesar de ele não ser musico.
No caso de Fred e Renato a coisa foi mais complicada, eles tinham pouquíssimo tempo, o sol estava se pondo e tínhamos apenas um cenário, tinham alguns caranguejos desenhados na parede e um fundo cor de abóbora e isto ficou legal, ligou os personagens ao movimento mangue porem a luz foi um problema e alem disso não queríamos repetir o cenário dos dois, colocamos um de um lado do cenário e outro do outro, não deu muito certo pois a luz ficou fraca em Lins, mas vai dar para usar.

Concepção e Camêra

Concepção

“Cadê as notas que estavam aqui? Não preciso delas, basta deixar tudo soando bem aos ouvidos” Chico Science em “Monólogo ao pé do ouvido, primeira faixa do Cd “Da Lama ao Caos”, seu primeiro cd.
A concepção estética do documentário “Viva Chico Vive” é baseada nesta frase de Chico, se no caso dele eram notas o nosso são padrões de audiovisual, de entrevistas e todo o tradicionalismo estético de documentário, isto tudo não é necessário, basta deixar soando bem aos olhos e ouvidos.
Os enquadramentos, cores, planos, cenários e os olhares dos entrevistados não seguem um mesmo padrão de uma entrevista para a outra, queremos com isto fazer um documentário com a estética de Chico Science, modernizando o passado.
Na parte de montagem queremos gerar a contradição e fugir do padrão também, ela ainda não foi feita mas iremos usar muita ironia e reflexão social usando o áudio em contradição com as imagens.




Câmera

Usamos a câmera HVX 200, uma ótima câmera que foi emprestada pela Universidade Metodista de São Paulo. Tínhamos alem desta câmera, uma mini-dv que não me recordo o nome pois ela não durou muito no campo de captação, por um golpe do destino acabemos perdendo ela em um táxi, foi muito azar pois o taxista que ficou com a câmera era o único antipático dos taxistas e talvez o único recifence antipático que conhecemos, por isso não pegamos seu cartão e perdemos a câmera.
Nas imagens de cobertura que usamos planos mais abertos sempre usávamos o tripé, para dar um ar de fotografia, de cartão-postal para a imagem, justamente para colocar em contraste com a pobreza na hora da montagem, como naquela musica do grupo carioca “Rap Brasil”: nunca vi cartão postal que se destaque uma favela, só vejo paisagem muito linda e muito bela.
Em planos pela cidade andando de táxi ou pegando coisas interessantes escritas nos muros a câmera ficava na mão mesmo, e uma filmagem que gostamos muito foi em Peixinhos, filmamos Abará andando pela periferia falando sobre a situação em que vivem, me lembrou muito um documentário sobre o rapper Sabotage que assisti há algum tempo, em que ele fica em seu bairro apenas conversando com a câmera e seus vizinhos.
Nas entrevistas usávamos a câmera sempre no tripé, por uma questão de comunicação mesmo, é bom lembrar que ainda não temos muita experiência com câmera na mão.

Realização

A pré-produção começou desde o tema escolhido, eram poucos do grupo que conheciam o trabalho de Chico Science e Nação Zumbi mas em pouco tempo todos já conheciam, discutiam e cantarolavam as canções da banda.
Nosso professor José Algusto Blasis, 28 anos de magistério nos indicou um livro chamado “Hibridismos musicais de Chico Science e Nação Zumbi” escrito por um ex-professor nosso, foram poucos do grupo que chegaram a ler parte do livro também, porém para quem leu ajudou muito principalmente para dar uma linha narrativa ao documentário, apresentar discussões e reflexões no filme.
Nosso grupo se reunia irregularmente para discutir o roteiro, textos e temas para o documentário, o titulo do filme até então não era discutido, tínhamos em mente nomes como “caranguejos com cérebro” e “Chico science e o movimento mangue” mas nenhum destes nos agradou. Em uma destas reuniões definimos uma linha de narrativa, seriam duas linhas que se cruzariam, uma era a da historia da região, contextualizando o quadro social, ambiental e político e a outra era a da carreira de Chico Science, este modelo nos conduziu para fazermos as perguntas e assim montarmos uma historia com inicio, meio e fim.
Alguns do grupo também leram algumas entrevistas que Herom Vargas havia feito com membros do movimento mangue e nos enviou, isso nos ajudou e foi com base no nosso pré-roteiro, no livro e na entrevista que fizemos as perguntas para os entrevistados.
Desde o inicio alguns do grupo sugeriram irmos para Recife para fazer um documentário mais rico, o dinheiro era um problema mas conseguimos um local para ficar na faixa e nos viramos, combinamos aqui de São Paulo com alguns entrevistados mas sem marcar horário nem data, eles apenas disseram “quando chegarem aqui me liguem” e foi isso que fizemos. Tivemos sete dias maravilhosos em Recife.
Ao chegar em Recife bebemos, fumamos e começamos a marcar as entrevistas, tínhamos cerca de vinte pessoas que queríamos entrevistar porem algumas pessoas não foram possíveis. O que me parece agora é que foram os entrevistados que nos escolheram e não nós que escolhemos eles.
Queríamos alugar um carro porem não foi possível, nossa locomoção foram diversos táxis e muita caminhada.
Captamos cerca de quinze horas de material, foram onze pessoas entrevistadas, as entrevistas variaram, a maioria ocorreu naturalmente e os entrevistados se sentiram muito à vontade, foram poucos os casos em que a entrevista ocorreu de maneira “contraída”, nossa estratégia era ser natural, ligávamos a câmera sem avisar o entrevistador e emendávamos perguntas banais e piadas com perguntas vitais para a narrativa, isso foi muito positivo.
Nossa principal influencia para as entrevistas do filme foi Eduardo Coutinho e sua linguagem “botequeira” e “fluida” e em questão de planos nos resolvemos variar bastante, alternando planos mais fechados ou abertos porem seguimos o padrão de fechar o plano quando o entrevistado esta emocionado ou falando algo profundo.
É difícil dizer qual foi a entrevista que mais gostamos porem quando fomos ao Daruê Malungo entrevistar Abará e Mestre Meia-Noite foi muito interessante, estávamos no dia anterior farreando na rua da moeda, estava rolando maracatu na rua e nosso companheiro Cauê estava em um estado deplorável, estávamos indo para uma festa que Helder Aragão e Rogê haviam nos chamado quando o camarada Milner começou a conversar com um “Jamaica” na rua, este era Abará, sobrinho do Mestre Meia-Noite e marcamos a entrevista para o dia seguinte, nos atrasamos para a entrevista mas ocorreu tudo bem, entrevistamos os dois e conhecemos o Daruê Malungo, um lugar lindo, (que ensina capoeira, maracatu, alfabetização e informática para as crianças da comunidade) e pessoas fantásticas como Abará e Meia-Noite.
A entrevista da Dona Rita, mãe de Chico Science também foi marcante, eu, Guilherme anotei o endereço dela em um papel e acabei perdendo, fomos parar em Rio Doce, Olinda e ela morava em Recife, em um lugar que não lembro o nome. Estávamos sem dormir há muito tempo, havíamos varado a noite bebendo e estava um sol de rachar, o problema ali era que já não conseguíamos raciocinar direito, porem resolvemos tomar uma cerveja e acabamos achando o endereço na pasta de documentos, ai pegamos um táxi e fomos para o local certo, todos dormiram no táxi e ao chegarmos fomos recebidos por Dona Rita, Goretti e um dos irmãos de Chico Science, todos muito simpáticos e amáveis, eles nos passaram uma energia muito boa e conseguimos fazer uma das melhores entrevistas da viagem e do filme. O áudio parece que esta ruim mas vamos ver o que podemos fazer.
As entrevistas de modo geral ficaram boas e descontraídas, esta era a proposta desde o inicio, algo natural como Coutinho faz.
A pós-produção esta ainda em desenvolvimento e não da para falar muito bem sobre ela, temos a idéia da contradição para a edição e iremos seguir primeiramente o roteiro básico e montar o filme para depois ousar, em outros cortes.
Para o final queremos um filme com uma narrativa linear porem com muita musica, imagens e palavras de impacto e cores bem salientes para destacar a riqueza cultural que a cidade e que Chico Science tinha em sua obra.

transcrição das entrevistas

primeira entrevista transcrita, com abará, emseguida quando as outras ficarem prontas serão postadas.

Como que chegou aqui, e o que representa pra você o movimento mangue?




"Foi uma explosão, que na época do Chico veio numa hora ideal e exata, todo mundo tava precisando bastante como cultura, como criação, e Chico fez uma criação, Chico aqui em Pernambuco é o bob Marley. Como diz aquela musica “um nego segura com a mão e chora, sentindo a falta do rei, quando Chico Science morreu foi aquele xororô...”. então Chico aqui é o nosso bob Marley, ele revoluciono a musica pernambucana, num tem o que se dizer, ele revoluciono, represento bem La fora, e o mais incrível que ele fez aqui em Pernambuco, aqui acontece aquelas festões, que os governantes, os donos de casa de shows aqui em recife tem mania de estar fazendo, samba recife, mas num é samba recife, se fosse tocar só os grupos de recife, seria samba recife, tocar revelação Jorge Aragão, não descriminando o trabalho deles, mas porque agente também num tem espaço La fora,eles num vão fazer em são Paulo o samba são Paulo, e convidar um grupo pernambucano pra fazer samba.”recife em dó” não é “recife em dó” Só vem banda da Bahia se tiver banda aqui de recife é uma só e muito mal, e nem se divulga na televisão nem na radio. E a galera só vai saber que tem banda de recife quando chegar até o festival que é o ‘recife em dó’, porque não tem divulgação. O que foi que Chico Science fez, conseguiu conquistar o publico aqui em Pernambuco, com a música dele, com o maguebeat dele, com a mensagem, que Chico era um poeta. Então ele conseguiu conquistar o publico através da música, ele num precisou vim de SP , RJ, nem da Bahia, ou do exterior, ele soube fazer a historia dele aqui, então por isso que Chico é uma peça muito importante pra gente aqui que vive de musica que depende da musica que curte que ama,primeiro agente faz de coração, agente num faz pensando em dinheiro, porque dinheiro é conseqüência, agente faz bem feito, agente faz de coração,porque agente ama, porque agente que é musico,percussionista, que é cantor, agente é muito discriminado, é muito mal visto,na vista principalmente dos policiais, já arrasta é ladrão, tatuagem já é maloqueiro, aonde os próprios ladrões são eles que andam fardados, os ladrões de carteira assinada. Então Chico conseguiu, conquistou o publico aqui,ele fez a musica rola aqui em Pernambuco, explodiu primeiro aqui em Pernambuco e depois foi pra fora, coisa que nunca aconteceu aqui, se vier uma banda da Bahia tocar aqui,”psirico” tocar aqui em Pernambuco, for pra uma radio, ou pra televisão, a televisão abre espaço, só porque é da Bahia, ai vem uma banda que é aqui de Pernambuco aqui da terra, ai pode fazer um show ai divulgar nosso trabalho, pode vim o viasat na mesma época que o nação zumbi estourou, a viasat estourou também, a viasat só vai ter direito de toca uma musica e ainda pela metade, eles cortem, aonde bandas de fora, pintam e bordam, samba recife num é samba recife, recife em do num é recife em dó, vai La em salvador pra ver se toca musica pernambucana. Eu passei dois meses lá, fiquei na Ca do mestre Jair, que comanda o Timbalada, fiquei na casa dele agente trocava muita idéia “não se iluda não, aqui é o mesmo esquema, aqui a galera não curte musica pernambucana”, tem dois três cantores que gostavam da musica de Chico, como Gilberto Gil, que canta musica de Chico no trio dele, Daniela mercuri, mas ninguém dá valor pra musica pernambucana não. Primeiro que eles conseguiram segurar nossa capoeira, que a capoeira é pernambucana existe a capoeira da Bahia, e a capoeira pernambucana, ai por isso que rolo essa diferença, a capoeira pernambucana,veio no navio negrereiro e atraco aqui, mas alguns negros fugiram pra salvador, que é primeira capital do Brasil, e o criador da capoeira é baiano que o mestre bimba, e o mestre pastinha, a terra da capoeira é a Bahia, mas o axé que Bahia tem Pernambuco tem, os orixás que faz milagres no terreiro da Bahia faz milagre aqui também. Nosso dois é um só, deus olha pra todos e todos tem o mesmo valor, e como eles tentaram segurar nosso frevo e não conseguiram, e ai como foi que eles piaram, o axé, que é palavra vem do candomblé, não se diz musica baiana, axé quer dizer tudo de bom.. “axé meu filho que você consiga todos seus objetivos”, ai como são espertos colocaram musica baiana, mas isso é errado, então agente o nosso frevo, agente num tiro o nosso frevo de candomblé nenhum, nosso nome frevo é frevo, é fervente é quente."